sábado, 1 de setembro de 2012

Excluídos pela inclusão
Colocar crianças com necessidades especiais em salas separadas divide educadores: parte deles acredita que é segregação, outros defendem que é uma alternativa eficiente para o aprendizado
por Ana Elizabeth Cavalcanti


A educação escolar de crianças com necessidades educacionais especiais não é uma experiência nova. Em meados da década de 70, as chamadas escolas alternativas já faziam as primeiras tentativas de acolher esses alunos no espaço escolar. Desde então, as escolas vêm acumulando as mais diversas experiências, e hoje se consolida cada vez mais a tendência de pensar numa educação de qualidade para todos. Mas o que seria isso? No início da década de 90, surgiu nos Estados Unidos um movimento que propunha a inclusão de todas as crianças com necessidades especiais em escolas regulares. Após a Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais, realizada em Salamanca, Espanha, em 1994, o “discurso da inclusão” tomou feições internacionais e, no Brasil, foi incorporado pelo Ministério da Educação e pela Secretaria de Educação Especial.


Se por um lado o princípio é indiscutível – todas as crianças, independentemente de suas condições, têm direito e devem ter acesso à escolarização de qualidade – por outro, ele cria dificuldades, quando se propõe a definir o que seria esse processo ou como deveria se dar. Em que pesem as diferenças existentes entre eles, os defensores da inclusão preconizam que todas as crianças devem estar em escolas e em classes regulares. Mas o que os autoriza, por exemplo, a afirmar que os surdos se escolarizam melhor em escolas e classes de ouvintes se eles próprios pensam exatamente o contrário? O que os leva a pensar que as chamadas crianças autistas e psicóticas devem estar obrigatoriamente em classes regulares, quando existem experiências tão diversas de sua escolarização e pouco se conhece ainda de seus particularíssimos modos de aprendizagem?


Em uma conversa sobre inclusão com um grupo de professoras da Rede Estadual de Ensino de Pernambuco, uma delas falou sobre suas experiências pedagógicas com crianças com necessidades especiais. Para algumas delas, disse a professora, as classes especiais ou integradas eram condição para estarem na escola, um meio de se tornarem visíveis. Para outras, essas classes foram dispositivos que promoveram a segregação e acentuaram a condição de inexistência. O mesmo se poderia dizer das salas regulares. “O que a minha experiência mostra e eu defendo”, disse a professora, “é que não há um modelo a ser seguido.” E concluiu: “Por isso, sou contra a inclusão”. Finalmente, movida por certo desconforto decorrente de seu posicionamento, acrescentou que, óbvio, não defendia a exclusão.


A fala dessa professora explicita o que incomoda no discurso da inclusão: ele tornou-se um discurso hegemônico e ideológico. Ou seja, o que é uma entre várias possibilidades de pensar a educação para todos tornou-se A forma, aquela que anuncia uma verdade única e indiscutível. O fato de a professora sentir-se obrigada a justificar que não era defensora da exclusão evidencia o efeito do modo maniqueísta de pensar presente nesse discurso: quem não está comigo, que represento o bem, está contra mim e com o mal. Ou seja, não aderir ao discurso da inclusão implica defender a exclusão. E aqueles que não aderem passam a fazer parte de uma extensa lista de excluídos – composta de professores, diretores de escolas, pais e dos próprios alunos com necessidades especiais, como os surdos, por exemplo –, tachados de resistentes, preconceituosos e segregacionistas.


Isso leva a supor que talvez, para pensar sobre uma educação de qualidade para todas as crianças, o paradigma binário inclusão/exclusão não ajude. Assim, a ideia de uma escola inclusiva deveria ser substituída pela de escolas diversas e plurais, efeito de experiências bem-sucedidas, sempre particulares, que já foram construídas ou estão por construir. Elas poderiam ser uma espécie de antídoto contra a atração fatal de homogeneizar o que é diverso por condição.
Ana Elizabeth Cavalcanti é psicóloga com formação em psicanálise, trabalha no Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem (CPPL) de Recife.

As diferenças na educação

A valorização das diferenças culturais e a participação social são indispensáveis para gerar um mundo mais humano e solidário.  A escola é um lugar privilegiado para abordar estes temas, pois a escola é o meio por excelência que trabalha com a infância, adolescência, a juventude e o adulto, fases diversas onde se pode despertar em cada etapa uma consciência mais humana. Nesse meio privilegiado, os educadores poderão utilizar estratégias de diversas formas, construindo assim, a elaboração e a reflexão de um trabalho mais dinâmico e com o respeito às diferenças, buscando, assim, novos significados para o conteúdo escolar e os espaços de lazer numa perspectiva multidisciplinar.
As diferenças que caracterizam a população brasileira estão presentes também na escola. Na escola aprendemos o que é bom, o positivo, o belo, mas também, muitas vezes, o que fere, o que machuca e o que coloca o ser humano em situação de diminuição, menosprezo e fragilidade.  Por exemplo, o preconceito pelo diferente, se dá, em determinadas situações, de forma implícita, ou seja, o que é aprendido e incorporado às redes de conhecimento que vamos tecendo ao longo da vida, nos diversos espaços estruturais. Aprendemos das práticas sociais que desenvolvemos e com as quais convivemos: TV, leituras, amigos, na escola, em casa. É urgente darmo-nos conta do preconceito e de certas verdades incorporadas e questionar-nos, refletir e procurar mudar os paradigmas, reconstruindo a cada dia a nossa forma de pensar e respeitar o diferente.
Este convívio com a diferença auxilia as crianças a se perceberem como sujeitos que se diferenciam pelos desejos, idéias, formas de vida, ajuda a perceber que cada um faz parte de um universo mais amplo e riquíssimo de expressões. Acolher as diferentes expressões e manifestações das crianças significa considerar o que cada um traz dentro de si e ensinar o convívio democrático e participativo, o que não significa necessariamente ter que aderir aos valores do outro, mas respeitar e enriquecer-se com o outro.  É função da escola valorizar a diversidade na composição da identidade, de modo que os alunos reconheçam o direito à diferença como constitutivo do direito à igualdade.
Trabalhar igualmente essas diferenças não é uma tarefa fácil para o professor, porque para lidar com elas é necessário compreender como a diversidade se manifesta e em que contexto. Portanto, pensar uma educação escolar que integre as questões étnico-raciais, e alunos com necessidades educativas especiais, significa progredir na discussão a respeito das diferenças na educação, das diferenças raciais e culturais e no direito de ser diferente, ampliando, assim, as propostas curriculares, buscando uma educação mais flexível e dinâmica de acordo com a realidade de cada educando. 
Jamir Berton